cozinha de pensamentos

::.. Escrever é um ócio trabalhoso ..:: -- Goethe

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Lótus







Sentei na cama como uma senhora de 90 anos, mas segurava o ventre como uma gestante de 8 meses. Colocadas as pernas confortavelmente sobre a cama, joguei o corpo para trás, levantando os braços. Da forma que caí, fiquei - exceto por arrumar a posição da cabeça, pois o pescoço sempre doía. 2.35 da tarde.

O corpo pesava sobre o colchão de molas como uma tora. Ainda balançava por efeito destes cento e tantos quilos sobre as pobres molas. Aliás, elas não tinham pra onde correr. Era aguentar ou ceder. A maioria era ainda forte - afinal, a nota do novo colchão ainda nem saiu da bolsa. Já dizia minha tia que colchão de mola só presta pra moças solteiras mesmo, porque, é claro que eu não saberia, o peso do marido do lado faz a inclinação da cama ser desconfortável para o sono à noite. Eu não saberia... certo...

Alinhei os olhos à direção que pendia o rosto. Maldito rebaixamento de gesso. As rachaduras estavam preocupantes. À noite mal me deixam dormir de tantos trac...tum-pah. Seguindo as rachaduras, esticando o olhar para a parede, a tinta descascava como o esmalte da unha que fiz há menos de dois dias. Esqueci de fazer a sobrancelha, buço e pernas; mas é claro, pintei o cabelo. Onde já se viu andar como uma 'sujimunda', como diz minha avó, de cabelo desbotado e desgrenhado!? Tem que se despir, descascar, pinçar, raspar, descamar e esticar pra ver se o que sobra fica à altura da expectativa... dos outros.

Passei a mão no rosto seguindo a linha das sobrancelhas tentando relaxar, quando uma fisgada no ventre, seguida de arrepio frio, e aquela irritante dor no sacro pioraram. Merda, acabou o ponstan. Virei pra alcançar o copo de água que estava lá há duas noites. Droga, me molhei toda e quase engasguei. Aquela água não estava legal. Com cara de desgosto, me viro e aperto o travesseiro. Senti um perfume alheio. Aquele cretino tem coragem de me ligar no meio da aula de francês depois de tanto tempo. Nem dei importância. Naquela hora. Nessa hora, como queria o peso sobre mim, o puxão de cabelo, o beijo na nuca.

"Tarzan and Jane were swingin' on a vine/Candy man, candy man/Sippin' from a bottle of vodka double wine/Sweet, sugar, candy man" tocou no meu celular. Que inferno, deve ser a Sandra de novo... será que ela não sabe que está confirmado amanhã? Ela tem mesmo que querer confirmar me ligando a cobrar toda vez?!? Está aí uma pessoa prolixa. Os pés acompanham o ritmo do toque, enquanto eu lembrava as vezes em que ela me interrompia a leitura pra perguntar se eu aceitava um café e emendava a conversa até chegar na filha dela que só sabe fazer filho e ela que tem que pagar pelas fraldas depois. Ela é uma pessoa bondosa, que até sufoca. Aliás, ela já virou família. Me cozinhou as batatas que restavam na geladeira com algumas rodelas de cebola e colocou o atum que tinha na dispensa. Mal sabia ela que eu estava sem saber o que fazer com aquele atum desde que li que eles podiam ficar extintos. Eu comi com remorso, mas aquela ressaca tinha pegado pesado em mim. Precisava daquela refeição. O azeite grego fez maravilhas àquela batata.

Quantas pontos terá uma batata na tabela do Vigilantes? Levantei o corpo num impulso de susto que esse cálculo não ia terminar bem. Dobrei as pernas e tentei encontrar equilíbrio - as molas estavam lá fazendo seu penoso trabalho. Caramba, meus pés estão macios mesmo. Dinheiro gasto com podólogo é dinheiro bem gasto. Mas, ei, não consigo dobrar o joelho sem que doa. Ih, é mesmo, não me depilei. Cazzo. Detesto quando a perna fica espetando. Pô, por que meu joelho tá doendo? Massageei com a mão direita enquanto a esquerda continuava no seu cálculo calórico. Segurei o dedo indicador com o dedão, desistindo dessa conta - afinal que diferença faria agora. Uma brisa desvirtuou meu pensamento ou qualquer vontade.

Pousei a mão esquerda sobre o joelho, ainda segurando o indicador com o dedão. O cheiro era de hortelã. Sabia exatamente de onde vinha. A pia tá cheia de louça - ai que desânimo. O cheiro persistiu, me invadiu. Pendi a cabeça pra esquerda e fechei os olhos. As mãos me acariciaram a nuca, penteando o cabelo de baixo para cima com os dedos, uma mão de cada vez. O corpo serpenteava ao movimento dos braços. Logo a gravidade venceu, e os braços doloridos cederam. Ao apoiar as mãos sobre o regaço, a coluna instintivamente se alinhou como a de uma bailaora flamenca que esperava o momento para suas castanholas cantarem. Senti um rubor nas maçãs da face e um calor ao colo. A cabeça pendia para trás agora, escapando da pouca luz que entrava pela fresta da persiana. "Gone, gone, gone" sussurava em minha mente, e timidamente pronunciei um mantra que parecia jorrar de não sei onde. Alinhei a cabeça, num movimento brusco, olhando à frente, como que lutando contra esse chamado estranho, como que ouvindo o chamado de meu nome. Como que em transe, o olhar permaneceu estático, mas o ventre dava lá seus cutucões querendo atenção.

Nada mais me incomodava. Mesmo a cólica era desprezada como se faz com uma criança insistente e tola. Uma saliva amarga desceu assim pela garganta, anunciando que debaixo do lençol havia um poço profundo de águas revoltas. Estas águas agitadas queriam sair pelos olhos, mas um golpe de fôlego as deteve. Puxava o ar, prendia-o, observava a respiração e soltava. Assim o fazia repetidamente. Desprendia-se junto com os músculos as camadas de gordura da cintura, a casca ressecada da pele morta, o ranço de raiva, a culpa por não me permitir, a insegurança, as preocupações de prazo, incertezas no trabalho, o calendário de aniversários e as contas à pagar. O que restou é o que ficou permanentemente. Um vazio estava ali, uma falta de propósito e de rumo. Este abismo me olhava com curiosidade e era inquisitor. Mas eu não entendia a pergunta, como teria a resposta? O silêncio me lembrava de olhar em outras direções, mas eu não podia, estava encantada, enfeitiçada por uma ausência de vontade. Vi que flutuava e quis me recostar àquele corpo d´água, percebendo a dominação completa sobre o meu corpo.

Estava sim, confortavelmente dormente. Não queria sair de lá. Não demorou muito e, intrometidamente, uma luz das entranhas me aqueceu e brilhava púrpura. Aos poucos volto a ouvir as batidas do coração, sentir os pulsos doloridos, fecho a boca levemente entreaberta. Molho a garganta com saliva. Pisco os olhos demoradamente como quem, num ato incrédulo, confirma que ouviu um segredo. Relaxo as pernas e alongo os braços.

4.12hs. Shit. Vou chegar atrasada de novo; nem me aprontei ou passei a blusa ainda. O Alexandre ainda me mata. Mas eu sempre encontro o antídoto.


[ R.M. 27/07/2007 ]