cozinha de pensamentos

::.. Escrever é um ócio trabalhoso ..:: -- Goethe

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

i. am. mine.

Quando olhei demoradamente para a pessoa na minha carteira de identidade, me assustei. Eu já quase não lembrava quem era ela. Aquela menina de face rosada, olhos espantados e cabelos rebeldes. Digamos que era um tanto quanto narcisista - para minha surpresa. Tudo bem, os cabelos rebeldes ainda o são, mas da narcisista não sobrou nem a sombra. Encarar aquela menina de 14 anos foi perturbador. Como eu podia ainda usar este documento para identificar quem sou neste momento: uma mulher de 29 anos, de rosto cansado e muito mais robusto, cabelos ainda rebeldes porém tingidos!?

Se olhar pelo lado prático, seria impossível manter um registro atual de identidade devido a seu caráter tão efêmero. Aquela identidade seria o que talvez minha mãe tenha de registro de mim. Ainda uma menina de 14 anos que perdeu o pai para uma doença terminal e, tão jovem, teve que começar a trabalhar.

Para alguns conhecidos me tornei a 'sortuda' que mora sozinha, que tem um carro e vai e volta quando bem entender. Para os parentes, uma 'coitada' que vive só e não casou ainda; para os amigos, alguém que reclama muito. Para os vizinhos, uma 'solitária' que vive só num apartamento de 3 quartos. Para a família mais próxima, alguém que mora distante. Para os alunos, maneira; para a chefe, uma pessoa difícil. Mas do que estou falando... esta foi a pessoa que me acostumei ser por uns 4anos, até alguns meses atrás.

E se você me perguntar agora "Quem é você?"... eu vou querer responder que "Não sei" e prefirir pensar que ainda estou em construção, e que nunca vou estar em fase final. Me vejo permanentemente em versão "beta" - sempre me transformando. Isso não me impede ter versão sobre qual é minha identidade... Eu sou um pouco de todas as identidades a mim dadas, em adição ao que só meus sentimentos poderiam expressar por mim. E estes, eu guardo só para mim e para aqueles que os souberem despertar.

Me olhar no espelho não é uma tarefa fácil - surge o desgosto pelo cabelo mal cuidado, o queixo duplo da gordura acumulada pelos anos, a pele seca, o olho direito sutilmente mais caído que o esquerdo, a raiz de cabelo branco. Se olhar superficialmente assim já dói, pense em como é doloroso olhar mais a fundo. Sim, analisar e observar requer crítica e comparação. Dái surge a linha fina que separa uma justa auto-crítica de um martírio castrante.

Gostaria de viver só de um lado da linha, mas esse equilíbrio é algo muito delicado e se quebra com facilidade. Nas horas em que fica muito fundo nadar, só resta voltar à superfície para descansar até que possa voltar lá. Como é um trabalho demorado, as coisas continuam no seu processo de construção, enquanto resgatamos outras que já se construíram e servirão de base para novos melhoramentos.

Para tanto, precisa-se de energia nutrindo a alma e acalentando o espírito: com o amor do companheiro, com a paciência dos amigos, com o zelo da família, com o reconhecimento do trabalho e com a ciência da auto-realização.