cozinha de pensamentos

::.. Escrever é um ócio trabalhoso ..:: -- Goethe

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Another brick in the wall

Já se flagrou tentando não ser mais um número estatístico? A estatística junta, analisa e etiqueta.


Quantas pessoas você conhece que moram com os pais? Quantos você conhece que possuem um carro? Quantos te tomam por uma pessoa inteligente? Quantos te chamam pra uma festa? Com quantos você pode contar quando precisa de ajuda? Dependendo da etiqueta, até que pode ser legal.


Quanto a morar com os pais: qual análise que se pode fazer sobre uma pessoa que quase aos 30 anos mora com os pais? Para os juízes de plantão, logo se conclui que este fulaninho deve mesmo ser um acomodado. E não para aí: esse tal nem deve gostar de trabalhar. Que uma pessoa precisa do seu espaço, e quem não o conquistou até os 30 anos só pode mesmo ser um fracassado. Não deve ser do tipo pra casar, e nem pra namorar. Coitado, nem tem sobre o que conversar...


Essa análise aí pode parecer um tanto quanto radical, mas é o que realmente se conclui de alguém de quem nem se sabe o nome, mas que caiu na estatística dos que moram com os pais. Sabe quando você lembra daquele vizinho de pais idosos? Ou ouve na conversa do café sobre o sobrinho da colega que vc acabou de conhecer? Você perde qualquer interesse de um dia conhecer o figura, mas se um dia chega a encontrar, já tem todo um pré-conceito sobre o tal.


Assim é o mundo dos números, cruel, taxativo. Não posso dizer que não é efetiva. Esses tipos estão por aí, e alguns deles na estatística do grupo de amigos. Sabemos que quanto ao fator humano, números não tem tanto poder assim. Portanto, você poderá ter sim um amigo que aos 30 anos mora com os pais, que tenha muito em comum com você e o assunto nunca esgote pra uma conversa entre um beberico e outro.


Sendo assim, seria possível que mesmo entre tantas estatísticas, números e blocos de pessoas rotuladas, ainda podemos encontrar alguma autenticidade? Em uma dinâmica de grupo, foi pedido aos participantes que se definissem somente em uma frase. O número de frases do tipo "odeio falsidade", "adoro fazer amizades", "adoro baladas e sair com os amigos" e similares me fez pensar. Pensar que este tipo de coisa TODO mundo gosta ou odeia. E se isso é o que qualquer um diria, o que exatamente torna as pessoas diferentes? Auto-definição me pareceu tão... redundante!


O fato de uma pessoa preferir preto a vermelho não seria suficiente para torná-la AUTÊNTICA per se. Esse detalhe faria diferença sim se esta mesma pessoa estivesse escolhendo uma roupa pra vestir, um carro ou esmalte pras unhas. Não que cores sejam importantes, mas o fato de serem ESCOLHAS que determinam que vida as pessoas levarão.







Como um amigo citou: "coisa perigosa essa de sair de casa". Sim, desde a escolha de que sapato usar por causa da chuva até quanto a ONDE se quer ir. Vejo que quem sou só se define pelas coisas que já escolhi e decidi. Missão impossível essa que colocaram naquela dinâmica de grupo. Uma frase só limita, não é verdade?


Preciso sempre olhar pra trás e ver como me tornei EU hoje. Olhando pra trás para construir o que vem à frente. Nunca podemos perder nossas raízes, lembrar de onde viemos, quem é a família que nos guiou até certo ponto e quem são os amigos que escolhemos por família ao longo do caminho. A partir daí, planeje o que quer fazer pro futuro. Tenha orgulho das sábias decisões que já fez e aprenda com as más.


Não comecei este texto com a intenção de fazer um discurso motivacional, mas sim porque por alguns instantes, me senti como muitos outros, que acabam cedendo às pressões da vida em sociedade e dobra à uma de suas regras inúteis. Então lembrei o motivo. Ah sim, esta pessoa que quero alegrar sim merece este "mimo". Não estou cedendo à um número, mas fazendo uma escolha. Não sou mais um "tijolo na parede" quando sinto o que escolher sem ignorar os fatos.